sábado, 10 de abril de 2010

NELSON FERREIRA - O RÁDIO E SUA MÚSICA



É importante lembrar que a verdadeira música popular é feita para o povo oriunda sempre do próprio povo, como a democracia.
Através da musica popular, talentosos interpretes e criadores musicais conseguem se evidenciar dos demais, o maestro Nelson Ferreira é um deles, embora essa afirmação mereça um estudo mais aprofundado e detalhado para um bom entendimento de sua obra musical.
Vamos, pois tentar fazer uma pequena análise sobre dois aspectos pouco conhecidos dos que fazem parte da nova geração. E, esses dois aspectos, dizem respeito, justamente, à passagem de Nelson como homem de rádio em Pernambuco e, também, como músico e compositor, comprometido com sua gente do Nordeste, com seus hábitos, tradições, costumes, folclore; o seu cotidiano social, cultural e político. Antes, porém, faremos, um ligeiro passeio sobre sua biografia.
O primeiro contato de Nelson Ferreira com a produção musical se deu aos 14 anos, quando compôs, a pedido da Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana, a valsa “Victoria”. Daí em diante, ele só parou quando lhe pararam o coração e o pensamento. Fez valsas, foxes, tangos, as mais diversas canções, especializando-se no gênero frevo, o ritmo brasileiro mais contagiante e popular.
Nelson Ferreira teve uma passagem tão atuante quanto brilhante, no panorama musical de Pernambuco. Ainda jovem, tocou em pensões alegres, cafés, saraus e nos famosos cinemas Royal e Moderno do Recife. Foi, portanto, o pianista mais ouvido na época do cinema mudo.
Nos primeiros anos do rádio, foi diretor artístico do Rádio Clube de Pernambuco onde, além de continuar compondo, foi também responsável pela criação de vários grupos e orquestras e, com tudo isso, ainda apresentava os mais variados programas. Assim, Nelson atingia com o seu talento e sua versatilidade, a todas as camadas sociais, divertindo, educando, provocando nas pessoas, o gosto pelo que havia de melhor em nossa cultura musical.
Foi um homem do disco, na década de 50, diretor artístico da Fábrica Rozenblit, instalada em Pernambuco. E essa fábrica ofereceu uma contribuição marcante na área discográfica. Nos anos 40, Nelson criou uma orquestra de frevo que fez extraordinário sucesso. Não, apenas um sucesso local, mas também nacional.
Nelson Ferreira compôs sete evocações que se tornaram famosas em todo o Brasil, sempre homenageando carnavalescos, jornalistas, velhos companheiros e outros verdadeiros imortais da poesia, da música popular brasileira e do nosso folclore.
Várias gerações, ao som da Orquestra de Nelson Ferreira e sob a sua batuta, brincaram carnavais inesquecíveis. Seu frevo fez-se eterno pela força criativa e pelo conteúdo popular. Ele foi um dos nordestinos que deixou o maior número de músicas gravadas na história da discografia brasileira.
Iniciou-se, na discografia da música popular brasileira, a partir de 1923, com a música “Borboleta não é ave”, de Nelson Ferreira, em ritmo de samba, gravada por Bahiano e o Grupo do Pimentel, em disco Odeon de nº 12.2384, lançada no carnaval brasileiro daquele ano. Entre seus intérpretes, além de nomes famosos da MPB, estão, também, uma infinidade de orquestras e os intérpretes pernambucanos Claudionor Germano e Expedito Baracho.
A importância de Nelson como compositor popular, vai além de sua produção de frevos. Nas primeiras décadas do século, por exemplo, suas valsas marcaram época nos cinemas, nos bailes dos clubes sociais de todo o Nordeste, nas reuniões familiares. De tão marcantes, essas valsas receberam do escritor Nilo Pereira, o comentário: “Nelson Ferreira, feiticeiro do piano, fixador dum tempo que as suas valsas revivem como se estivessem falando. Se meia hora antes de sair o meu enterro, tocarem as valsas de Nelson, velhas valsas tão íntimas do meu mundo, irei em paz, sonhando”.
Bem, vamos conversar agora, um pouco, sobre a importância de Nelson Ferreira na história do rádio pernambucano. É que até hoje, talvez, pouco se tenha dito sobre esse homem múltiplo, sensível, carismático. Particularmente, muito pouco mesmo se disse sobre sua vinculação ao Rádio Clube de Pernambuco, onde começou em 1931, atuando até 1971. Justamente então, a emissora já não satisfazia aos anseios de Nelson Ferreira, desejoso por um rádio que, mesmo não sendo tão eclético, não se tornasse popularesco.
A pesquisa que nós fizemos e publicamos como um capítulo à parte no livro “Fragmentos da História do Radio Clube de Pernambuco”, foi um trabalho de levantar dados, colhendo e fiando através de depoimentos. E, entre esses depoimentos, além de encontrarmos o do próprio Nelson Ferreira, estão também o de nomes importantes na radiofonia pernambucana. E todos, unanimemente, têm sempre algo de verdadeiro e elogioso a dizer sobre o eminente maestro.
O compositor Luiz Bandeira, por exemplo, afirmou:
“Quando ingressei no Rádio Clube de Pernambuco tive a sorte de ter Nelson Ferreira como mestre. Ele tinha qualidades maravilhosas de produtor, radioator, redator, jornalista, compositor, letrista. Era também um grande instrumentista. Uma coisa fora do comum! Excelente maestro e arranjador! Tive a sorte de ter grandes mestres no início de minha carreira. Nelson Ferreira era um deles. Era o homem do carnaval do meio do ano, do São João. Fazia música como “A Canção do Nordeste”, durante a guerra que era uma marcha marcial exaltando o nosso soldado na participação da guerra. A versatilidade e a capacidade em si do Diretor Artístico da PRA-8, era evidente”.
Um outro depoimento sobre o maestro Nelson Ferreira e sua participação no Rádio Clube, vem de Ziul Matos, um dos mais famosos galãs de novelas, narrador e locutor da época:
“Eu entrei no rádio graças a Nelson Ferreira. Minha vida no rádio foi toda ao lado de Nelson Ferreira. Eu devo a minha projeção a ele. Fui seu parceiro em várias músicas”.
Quando foi contratado pela PRA-8, Nelson tornou-se o pianista constante dos programas ”Quarto de Hora”, onde eram focalizados os astros de primeira grandeza, como Eribaldo Alcoforado, Aline Branco, sempre por ele acompanhados.
Por muito tempo, Nelson encantou seus admiradores, ora acompanhando artistas famosos, ora executando, ele mesmo, belíssimas páginas da boa música brasileira.
Até que um dia, os ouvintes do Rádio Clube, foram agradavelmente surpreendidos com o surgimento de mais dois pianistas cobrindo os programas de “Quarto de Hora”. Um, apresentava-se como Heráclito Alves e o outro, Da Costa e Silva.
Completamente perplexo, o público observava que os dois novos pianistas eram tão talentosos e sensíveis quanto o Maestro Nelson Ferreira, embora, vez ou outra alguém desejasse apostar que Nelson ainda era o melhor. E, a maioria dos ouvintes tinha razão. Era difícil ou quase impossível definir quem era o melhor. Os dois, era o próprio maestro, utilizando cognomes diferentes, com o intuito de criar um clima competitivo. E o maestro atingiu o seu objetivo. Com o passar do tempo o público ouvinte passou a dividir sua preferência entre os três pianistas, sem nem de longe desconfiar que todos eles eram, simplesmente, Nelson Ferreira.
O que foi de fundamental importância na vida do maestro, que realmente lhe permitiu projetar com mais vigor a sua criação musical de 1931 a 1947, foi, além do seu grande e indiscutível talento, o intercâmbio feito pelo Rádio Clube, abastecendo os seus microfones com os maiores astros da canção no Brasil. Nelson Ferreira, que os acompanhava ao piano, conseguiu que nomes como Francisco Alves, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Almirante, Dircinha Batista, Minona Carneiro, Augusto Calheiros, Joel e Gaúcho, Gilberto Alves e algumas das maiores orquestras brasileiras, gravassem suas músicas, divulgando assim, por todo o país a produção musical do ilustre maestro da PRA-8.
Nelson Ferreira demonstrou sempre um profundo conhecimento das coisas que faziam o povo vibrar, sair às ruas e se pronunciar. Tanto assim é que, certa vez, solicitado por Mário Libânio para musicar uma letra de caráter político, cujo objetivo seria o de tentar popularizar a campanha do então candidato ao Governo de Pernambuco, o ex-ministro Agamenon Magalhães, o maestro não se fez de rogado e compôs a música “Na Hora H-Agamenon”, uma música fácil, de enorme aceitação popular, que ganhou as ruas, os morros, os bairros mais aristocráticos, e não deu outra: Agamenon foi eleito pelo voto do povo.
Nelson Ferreira foi, sem dúvida, uma fonte inesgotável de inspiração, possuidor de uma energia que se despejava em forma de canção. Além de compositor de sucesso no carnaval de Pernambuco, Nelson Ferreira enveredou pelo mundo dos anúncios, emprestando-lhe a sua arte, tornando-se o pioneiro dos “Jingles” e dos anúncios musicados para o rádio pernambucano. E, muitas vezes, os temas de suas composições carnavalescas foram inspirados nas propagandas por ele criadas.
Depois dessas colocações sobre o Nelson Ferreira, músico e radialista, vamos nos ater um pouco mais no Nelson compositor e letrista, historiador musical do seu tempo, fotógrafo do cotidiano e profundo conhecedor das coisas do seu povo, fazendo de suas composições veículo e voz de sua gente.
Com o humor que lhe era característico, ele lançou , em disco, exatamente em janeiro de 1931, após a deposição de Washington Luiz por Getúlio Vargas, a marcha canção satírica “A Canoa Virou”, fazendo gozação sobre a fuga do então Governador de Pernambuco, Estácio Coimbra e de seu chefe de polícia Ramos de Freitas, conhecido por “Beiçola”.
Para o carnaval de 1932, Nelson Ferreira continuou a abordar o tema político. Quando se deu a queda da República Velha com a Revolução de 30, lançando a marcha “A Canoa Afundou”. Nesta composição, ele pede que Carlos de Lima Cavalcanti, então Governador, afunde a canoa, e recorda ainda, o fracasso da tentativa de implantação da moeda “cruzeiro”, pelo governo de Washington Luiz.
Durante a Segunda Guerra Mundial, duas produções de Nelson Ferreira, dois frevos-canção, destacaram-se: um, satirizando a figura do ditador alemão Adolf Hitler sob o titulo; Quer matar papai oião e o outro, resgatando a forte presença militar americana no Recife, influenciando o comportamento dos jovens na época, o que se traduziu pelo aprendizado do idioma, pelo uso de gírias do dicionário do Tio Sam, com a música “Bye,bye my baby”.
Ainda durante a Guerra, em parceria com o compositor Sebastião Lopes, para os carnavais de 1941 e 1943, respectivamente, Nelson compôs os frevos canções “Dança do Carrapicho”, propaganda de um brim forte e grosseiro e, “Lá no Derby”, que se propõe a vender um tecido em algodão estampado, cujo nome Derby, é uma alusão à nossa famosa praça do Derby, cujos gramados eram o point da época, para passeios e encontros de namorados.
Foram tantas as incursões musicais do maestro Nelson Ferreira, também em temas do cotidiano, que se levaria horas para rememorar todas elas. Mas, vamos, ao menos, lembrar alguns dos seus trabalhos, como foi o caso de sua marcante contribuição para a vitória do político Cid Sampaio, em 1958, durante sua campanha para Governador do Estado, com o frevo canção “O Grande Cidadão” e o frevo de bloco “Bloco da Vitória”, que mereceu do próprio Cid Sampaio um agradecimento e o reconhecimento de sua força como compositor de méritos e talentos inegáveis.

Até quando morreu em 1976, Nelson continuou produzindo memoráveis composições que hoje, fazem parte da maior produção de música popular de que se tem notícia no Nordeste.
Nelson Ferreira homenageou clubes de futebol de sua terra, como é o caso do Náutico e do Sport, lamentando somente não haver feito o mesmo pelo seu clube do coração o Santa Cruz. Segundo ele, só valeria a pena compor um hino para o Santa se o hino fosse melhor que os outros dois já compostos, missão quase impossível.
Para a inauguração de Brasília, ele compôs, “Frevo na Belacap”. Da mesma forma, um frevo foi composto para a chegada do homem à Lua, intitulado “Armstrong na Apolo Frevo”. Quando, em 1940 o Náutico apanhou do Flamengo do Recife por 21 x 2, com 11 gols de Tará, ele, como bom tricolor, não deixou passar em branco a oportunidade de fazer uma boa gozação e, em parceria com Ziul Matos, compôs o frevo canção “Qual será o score, meu bem?”
Ainda em parceria com Ziul Matos, ele cantou as belezas da capital que tão bem o acolheu, quando veio do interior, na “Veneza Americana”. Ajudou na eleição de Miguel Arrais a Prefeito do Recife, em 1959, na famosa união das esquerdas, com o frevo canção, gravado por Claudionor Germano, intitulado “Miguel Arrais... Tá”, cuja letra dizia: “Êta, minha gente, vai ser uma gostosura, com Cid no Governo e Arrais na Prefeitura”. E, ainda fez o povo comemorar cantando o frevo canção “Caiu a Sopa no Mel”, em parceria com Aldemar Paiva e Sebastião Lopes.
Nelson Ferreira cantou como ninguém as coisas do seu Estado natal, quando produziu com Aldemar Paiva, o frevo canção, gravado na voz de Raimundo Santos, “Pernambuco você é meu”. E Nelson falou ainda dos mais populares programas do rádio e da TV, através de frevos como “Um Instante, Maestro”; “Não, Pedro Bó”; “O Homem da Bengala”, “Gato do Bombinha”, “A Palavra é...” , isto só para citar alguns.
Nenhum compositor nesta terra, disse tanto de sua gente, com tanta alegria e carinho, até hoje tão presente. E, em termos de Brasil, sua projeção musical evidenciou-se de forma efetiva em 1957, quando tornou, definitivamente popular, o frevo de bloco, através de sua “Evocação nº 1”, sucesso do carnaval de todo o país, onde Nelson resgata, com saudade, figuras e momentos inesquecíveis do carnaval do Recife.
A produção musical de Nelson Ferreira é um retrato de nossa própria história sócio-cultural, durante as décadas em que compôs.. O maestro Vicente Fittipaldi afirmou certa vez: “Ele era como Mário Melo, Ascenso Ferreira, Valdemar de Oliveira, uma das instituições da cidade. Ele era com sua música, aquilo que Garrincha foi com o seu futebol, a alegria do povo”.
Nelson Ferreira veio a falecer no dia 21 de dezembro de 1976, no Hospital Português do Recife e seu corpo foi transportado para o hall da Câmara Municipal, onde foi velado. O itinerário em direção à sua última morada, ele o fez nos braços do povo, ao som dos seus frevos e evocações.
Quando seus olhos se cerraram pela derradeira vez, o sociólogo Gilberto Freyre escreveu para o Diário de Pernambuco: “O vazio que deixa é o que nos faz ver como era grande pela sua música, pelo seu sorriso, pela sua fidalguia de pernambucano”.

Renato Phaelante
Pesquisador Fonográfico da FUNDAJ

3 comentários:

  1. Gostaria de saber o nome da música tema de abertura dos Campeões da Bola da Super Rádio Clube de Pernambuco nos anos 80. Acho que é Terra Brasileira? Vocês poderiam indicar um link para baixá-la?

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    1. Prezado Luiz Alves,

      Boa noite. Vá ao blog do Luiz Berto, o JBF e veja a resposta que ele me deu a essa mesma pergunta. Lá, você encontrará a música desejada e poderá escutá-la.

      De minha parte, gostaria de descobrir que orquestra e coro a executam. Você saberia dizer ?

      Abraços.

      Philippe

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  2. Gostaria de saber o nome da música tema de abertura dos Campeões da Bola da Super Rádio Clube de Pernambuco nos anos 80. Acho que é Terra Brasileira? Vocês poderiam indicar um link para baixá-la?

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